Moradores da Zona Rural de Manicoré, no interior do Amazonas, as crianças indígenas Gleison Carvalho Ferreira, de 9 anos, e Glauco Carvalho Ferreira, de 7 anos, desapareceram em 18 de fevereiro de 2022, quando saíram da comunidade onde moram para caçar pássaros.
“Tinha muito gafanhoto, que roía, formiga, que ferrava, morcego, que mordeu a orelha dele. Tem uma mordida na mão dele. Aquilo foi uma aranha. O maior matou uma cobra”, detalhou a mãe das crianças, Rosinete da Silva Carvalho.
A mãe das crianças amazonenses acredita que o fato de eles serem indígenas foi fundamental para a sobrevivência. “Porque eles têm aquele modo, aquele costume que a gente fala ‘da terra’, de comer as frutas que eles conhecem. E foi isso mais que alimentou eles”, disse.
As buscas
Os meninos sumiram em uma sexta-feira e, no domingo seguinte, dia 20, dois grandes grupos de buscas foram montados. Segundo os bombeiros, o raio de procura foi de aproximadamente 15 quilômetros na mata.
No dia 25 de fevereiro, oito dias após os desaparecimentos, as buscas foram encerradas pelo Corpo de Bombeiros, mas indígenas de aldeias que ficam em Capanã Grande, em Manicoré, continuaram a procurar pelas crianças na região.
Dois dias depois, em 27 de fevereiro, as buscas foram retomadas depois que a comunidade encontrou novas pistas. Uma indígena voluntária, que atuou diretamente nas buscas, informou, na época, que foram encontradas pegadas e até uma possível “cama” feita de palha.
– Eu bati em uma árvore e foi quando eles gritaram: “Ei”.
– Eu conheci e disse: “Vocês estão perdidos?”.
– E um deles respondeu: “Vem me buscar!
Manoel concluiu: “Pera aí um pouco que eu tô buscando vocês”. Saí em disparada pra lá”.
As crianças foram resgatadas apresentando um quadro grave de desnutrição e escoriações na pele.
Após serem encontrados, os irmãos receberam atendimento emergencial no hospital de Manicoré, mas tiveram de ser transferidos para Manaus.
A transferência foi autorizada após o Ministério Público do Amazonas pedir que os dois fossem examinados por um especialista até quatro horas após o resgate.
Internação
Crianças tiveram alta após 21 dias internadas. — Foto: Ayrton Senna Gazel/g1
Os dois apresentaram machucados infeccionados. Um deles tinha uma úlcera na região sacra (no final da coluna), além de feridas no ouvido causadas por larvas de mosca. Ambos passaram por constante monitoramento e, após a alta, retornaram para Manicoré.
Como as crianças estão atualmente?
Um ano e quatro meses após a experiência, as crianças retornaram à vida normal na Aldeia Paraíso, no Lago da Acará, Zona Rural de Manicoré, local onde nasceram.
Nesta segunda-feira (12), a secretária de assistência social de Manicoré, Inara Socorro, contou ao g1 que as crianças estão saudáveis, vivendo com a família e que retornaram aos costumes que tinham antes de desaparecerem.
Da esquerda para a direita, Glauco e Gleison — Foto: Arquivo pessoal
Cláudia Carvalho, tia das crianças, compartilhou uma foto dos irmãos feita em dezembro de 2022 durante um aniversário de uma familiar, nove meses depois de Glauco e Gleison serem resgatados da floresta. Os dois aparecerem fazendo poses juntos. Veja acima.
“É difícil ter contato com eles devido a localidade onde moram, mas todo fim de mês eles viajam até a cidade acompanhados dos pais para fazer visitas”, explicou a tia.
Crianças colombianas
Crianças que sofreram acidente aéreo na Colômbia são encontradas com vida após 40 dias — Foto: Forças Militares da Colômbia/Divulgação
Os irmãos pertencem à etnia indígena uitoto e têm 13, nove e quatro anos, além de um bebê de 11 meses, que completou um ano durante o período na selva. A mãe delas, Magdalena Mucutuy Valencia, o piloto e mais um passageiro morreram no acidente, ocorrido em 1° de maio.
O avião monomotor Cessna transportava três adultos e quatro crianças quando o piloto declarou emergência devido a uma falha no motor. A pequena aeronave saiu do radar pouco tempo depois e uma busca por sobreviventes começou.