“Aqui no Pará os aglomerados subnormais, as baixadas, têm característica de planície, são áreas planas, que até possuem dificuldade de acesso, às vezes, devido aos mangues, rios e igarapés, mas não há aquela questão da subida, das vielas irregulares, se formos como comparar com os morros do Rio de Janeiro, onde tem ainda a questão dos obstáculos, dificultando o trabalho da polícia”.
O coronel da reserva, Robson Rodrigues, antropólogo especialista em segurança pública e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), aponta hipóteses para tentar explicar o fenômeno da migração de traficantes paraenses para o estado do Rio de Janeiro. São elas:
- morosidade da justiça criminal;
- brechas no sistema nacional de foragidos;
- conexão interestadual do tráfico à sombra do Estado.
“A migração sempre aconteceu, mas tem ocorrido de forma mais sucessiva, porque o Rio de Janeiro tem toda uma atração para o traficante que ganha dinheiro ilícito”, explica.
“Esses foragidos aproveitam as fragilidades do sistema de justiça criminal, que ainda possui uma certa lentidão, e nesse vácuo, eles vão para outra localidade, buscando se sentir à sombra do Estado. Houve ainda um incremento no RJ do sistema de localização de pessoas com mandados, mas isso ainda não chega nas comunidades. Outro ponto é o fenômeno global de circulação ilegal de drogas e armas, redes que ultrapassam as fronteiras dos estados e uma conexão entre negócios ilícitos”.
O delegado geral de Polícia Civil (PC), Walter Resende, explica que desde 2020 a polícia paraense investiga as articulações feitas por criminosos em outros estados, como foi o caso do Rio de Janeiro. “Atuamos identificando essas lideranças, monitorando através da inteligência os grupos que se formaram desde então”.
Resende afirma que a PC montou uma base em agosto de 2022 para aprimorar as investigações, que miravam lideranças e continuavam comandando crimes no Pará, como ataques a agentes de segurança e até sequestros e extorsões, além do tráfico de drogas.
Léo 41 estava foragido do Pará desde 2019. Segundo as investigações, ele assumiu a chefia da facção no estado após a prisão de Cláudio Augusto Andrade, o Claudinho do Buraco Fundo, em setembro de 2020. O delegado Resende explica que a mudança que ele implantou no crime organizado no PA foi uma conotação empresarial, seguindo exemplos no RJ.
“O Leonardo Araújo assumia liderança da facção há cerca de dois anos e inicialmente estava escondido na Penha. De lá, já direcionava várias ações aqui no Pará. Mas a polícia percebeu que, além dele, outras lideranças também estavam no RJ, migrando da Penha para São Gonçalo, na capital carioca”, explica.
Escondido nas comunidades do Grande Rio, ele coordenava um plano de expansão da organização com a compra de armas e munições, financiada por tráfico de drogas, roubo, extorsões, sequestros e cobrança de valores mensais dos integrantes da organização criminosa.
Desde que assumiu, o traficante vivia vida luxuosa, patrocinado pelas ações criminosas e pela própria organização, que passou a arrecadar volumes altos de dinheiro com tráfico e extorsões de comerciantes, jogos de azar, e provedores de internet.
Léo 41 já foi indicado por seis crimes, incluindo latrocínio, e era investigado em outros 15.
A PC do Pará então teve apoio do governo do Rio de Janeiro na ação que estava planejada desde 2022. A operação no Salgueiro, por exemplo, teve cinco blindados e dois helicópteros da polícia do RJ, reunindo 80 agentes dos dois estados.